Durante 28 anos, o Campeonato do Mundo funcionou com 32 seleções, já que de França 1998 ao Qatar 2022, o formato não mudou: oito grupos, dezasseis equipas no mata-mata, seis jogos até à final.
Em 2026, a FIFA abandona esse molde.
Pela primeira vez na história, 48 seleções disputam o título mundial, mais dezasseis equipas, quatro grupos adicionais e uma fase eliminatória que nunca existiu.
O torneio fica maior em quase todos os critérios, mas esta questão divide opiniões se realmente fica melhor para todos os amantes da modalidade.
O que muda no formato
As 48 seleções estão divididas em doze grupos de quatro equipas cada, identificados de A a L, sendo que cada equipa joga três partidas na fase de grupos, como até agora.
A diferença está na classificação: passam à fase seguinte os dois primeiros de cada grupo, vinte e quatro seleções, mais as oito melhores terceiras classificadas, o que dá um total de trinta e duas seleções que avançam para o mata-mata.
Este número gerou uma mudança estrutural.
Com trinta e duas equipas em vez de dezasseis no mata-mata, a FIFA introduziu uma fase nova: os dezasseis-avos de final.
O campeão precisa agora de vencer oito jogos em vez de sete para levantar o troféu, sendo que nesta edição as meias-finais realizam-se a 14 e 15 de julho, em Arlington e Atlanta e a final está marcada para 19 de julho no MetLife Stadium, em Nova Jérsia.
Há uma regra tática relevante para quem acompanha de perto a fase de grupos: o saldo de golos ganhou mais peso nos critérios de desempate.
Com oito terceiros classificados a competir por vagas, a diferença entre avançar e ser eliminado pode ser um golo marcado num jogo já decidido. As seleções que gerirem o marcador de forma conservadora arriscam ficar fora por esse detalhe.
A distribuição de vagas por confederação
A expansão para 48 seleções redistribuiu as vagas entre as confederações.
A UEFA passa a ter dezasseis representantes, três a mais do que no Qatar. A CAF quase duplica a representação africana, de cinco para nove vagas diretas, a AFC sobe de quatro para oito, e a CONCACAF, incluindo os três anfitriões, garante seis lugares.
A CONMEBOL mantém seis vagas e a OFC, que historicamente dependia quase exclusivamente da repescagem intercontinental, passa a ter uma vaga direta garantida: a Nova Zelândia qualificou-se por essa via.
As duas vagas restantes foram decididas numa repescagem intercontinental disputada nos EUA em março de 2026, com seis seleções em formato de mata-mata.
O efeito prático desta redistribuição: o futebol africano e asiático, que em décadas anteriores tinha representação limitada, chega ao torneio com o dobro dos lugares.
Marrocos chegou à meia-final no Qatar com cinco seleções africanas, mas em 2026 serão nove.
Quatro estreantes absolutos
A expansão abriu a porta a seleções que nunca tinham disputado uma fase final de Campeonato do Mundo. Em 2026, há quatro estreantes absolutos: Cabo Verde, Curaçao, Jordânia e Uzbequistão.
Cabo Verde qualificou-se a liderar o Grupo D das eliminatórias africanas, à frente de Camarões e Angola. A seleção, treinada por Bubista, somou sete vitórias e dois empates em dez jogos e não sofreu qualquer golo em casa.
Com cerca de 525.000 habitantes dispersos por dez ilhas, torna-se o segundo menor país por população alguma vez presente num Mundial, apenas atrás da Islândia em 2018.
Os estreantes terão uma tarefa difícil nesta competição, já que terão como adversária na fase de grupos a Espanha.
Curaçao fez uma campanha invicta nas eliminatórias da CONCACAF.
A ilha caribenha tem cerca de 160.000 habitantes, o menor território por população a chegar a um Mundial, sendo que o seu plantel é maioritariamente formado por jogadores nascidos na Holanda, resultado da ligação histórica entre os dois países.
No Grupo E, a estreia é contra a Alemanha, a 14 de junho.
A Jordânia foi vice-campeã da Copa da Ásia em 2023 e garantiu vaga directa nas eliminatórias asiáticas, sem necessidade de repescagem.
O Uzbequistão, treinado por Fabio Cannavaro, chega com uma geração que passou pelo torneio olímpico de Paris 2024 e joga o segundo jogo do grupo contra Portugal, a 23 de junho.

O debate em torno da qualidade
A expansão de 32 para 48 seleções não foi consensual, já que os argumentos contra centram-se na diluição do nível: com mais vagas, seleções de menor expressão competitiva chegam ao torneio, o que potencialmente resulta em mais jogos desequilibrados na fase de grupos.
Com doze grupos de quatro equipas, os cenários de jogo sem intensidade, quando uma equipa já garantiu a passagem e a outra já está eliminada, tornam-se mais frequentes.
Os argumentos a favor têm o Qatar 2022 como referência.
Marrocos chegou à meia-final com cinco seleções africanas no torneio, a Arábia Saudita bateu a Argentina na fase de grupos e a Coreia do Sul tinha chegado à meia-final em 2002.
O argumento de que os torneios alargados produzem futebol de menor qualidade ignora que as grandes surpresas acontecem precisamente quando seleções menos favoritas encontram favoritas em dias maus. Com mais jogos, há mais oportunidades para isso acontecer.
O próprio sistema dos oito melhores terceiros classificados cria uma tensão competitiva diferente dos formatos anteriores.
Nos últimos jogos de grupos paralelos, uma derrota num grupo pode ficar ainda com hipótese de avançar se o saldo de golos for suficiente. Essa incerteza prolonga o interesse da fase de grupos por mais jogos do que o habitual.
Portugal no contexto do novo formato
Portugal está no Grupo K, onde terá que defrontar o Uzbequistão de Cannavaro como adversário na estreia a 23 de junho, um jogo que, no formato anterior, não existiria.
Com o alargamento para 48 seleções, Portugal pode cruzar-se no mata-mata com seleções que há dez anos não chegavam sequer à fase de grupos.
Para Roberto Martínez, conhecer o perfil dessas equipas, ritmo físico diferente, estruturas táticas menos convencionais, faz parte da preparação.
A vantagem para as seleções mais fortes é que passam trinta e duas equipas ao mata-mata. Uma seleção no Pote 1 do sorteio tem três jogos de fase de grupos contra adversários, em média, mais acessíveis.
O risco de eliminação precoce por um tropeço pontual diminui relativamente ao formato anterior.

O que este formato significa para o futebol global
A presença de Cabo Verde, Curaçao, Jordânia e Uzbequistão não é apenas uma curiosidade, já que cada uma destas seleções qualificou-se por mérito próprio nas eliminatórias, em grupos competitivos.
Cabo Verde eliminou Camarões e Angola. Curaçao fez uma campanha sem derrotas numa zona onde o México, os EUA e o Canadá dominam historicamente.
A FIFA justifica a expansão com o argumento da representatividade global.
Em 1982, o torneio passou de dezasseis para vinte e quatro seleções. Em 1998, de vinte e quatro para trinta e duas. Cada expansão foi contestada na época e aceite na edição seguinte, o que faz com que o padrão sugerido neste formato de 48 seleções seja para durar.
O Haiti regressa ao Mundial 52 anos depois da última presença, em 1974, a Nova Zelândia qualifica-se por vaga direta pela primeira vez, e assim a Oceânia deixa de depender exclusivamente da repescagem.
Em 2026, 48 seleções entram, mas apenas uma sai campeã.