A FIFA prepara-se para reinventar o mais icónico torneio de futebol do planeta. Com 48 seleções, 104 jogos e uma fase a eliminar completamente redesenhada, o Mundial de 2026 promete ser uma competição sem precedentes. Mas será que mais é, de facto, melhor?
Há momentos na história do desporto em que as regras do jogo mudam de forma irreversível.
O Mundial de 2026, que arranca a 11 de junho com o jogo inaugural no lendário Estádio Azteca, na Cidade do México, é um desses momentos. Não se trata apenas de uma edição diferente, trata-se de uma rutura com um modelo que vigorou durante quase três décadas e que moldou a forma como o mundo inteiro vive o futebol.
Desde 1998, o formato era um velho conhecido: 32 seleções, oito grupos, 64 jogos, e um percurso eliminatório direto das oitavas de final até à grande final. Um modelo testado, afinado, quase perfeito.
Agora, a FIFA decidiu virar a página.
De 32 para 48: a grande expansão
A mudança mais estrutural e mais simbólica deste Mundial é o alargamento do número de participantes. Pela primeira vez na história da competição, 48 seleções vão disputar a fase final do Campeonato do Mundo, 16 a mais do que em qualquer edição anterior. Um aumento de 50% que obriga a repensar praticamente tudo: a estrutura dos grupos, as fases eliminatórias e até a duração total da competição.
A lógica da FIFA é clara: ampliar a representatividade global do futebol, garantindo que mais continentes e mais culturas desportivas estejam presentes no maior palco do mundo. E o argumento tem peso. Pela primeira vez em toda a história da competição, todos os continentes estarão representados no torneio, com a Oceânia a apurar pela primeira vez uma seleção para a fase final. Seleções como Cabo Verde, Curaçau, Jordânia e Uzbequistão chegam ao maior palco do futebol pela primeira vez. Outras, como a República Democrática do Congo e o Haiti, regressam após décadas de ausência.
É um Mundial mais inclusivo, sem dúvida. Mas, como em qualquer reforma de grande escala, a inclusão tem um custo.
Doze grupos e uma nova fase eliminatória
Para acomodar as 48 seleções, a fase de grupos passou a contar com 12 grupos de quatro equipas cada, mais quatro do que no formato anterior, que tinha oito grupos. O modelo de funcionamento interno dos grupos mantém-se familiar: cada seleção disputa três jogos, e os dois primeiros de cada grupo avançam automaticamente para a fase seguinte.
A grande novidade está no terceiro lugar. Neste novo formato, os oito melhores terceiros classificados também se qualificam para a fase a eliminar, totalizando 32 equipas no arranque do mata-mata. Esta regra aumenta de forma considerável a tensão nas últimas jornadas dos grupos: não basta olhar apenas para a luta pelo primeiro e segundo lugar — o terceiro classificado pode valer vida extra no torneio, e em alguns cruzamentos pode até ser mais vantajoso terminar em terceiro do que em segundo, consoante os confrontos definidos pelo sorteio.
A FIFA chegou a ter em cima da mesa um modelo alternativo: 16 grupos de três equipas, com um total de 80 jogos. A ideia foi abandonada, e bem. Grupos com apenas três seleções colocam na última jornada um problema histórico e vergonhoso para o futebol: a impossibilidade de jogos simultâneos, abrindo a porta a acordos de resultados. O fantasma de Gijón, de 1982, quando Alemanha e Áustria combinaram um resultado que ambas precisavam para eliminar a Argélia, ainda paira sobre a memória coletiva do desporto. A FIFA reconheceu o risco e optou por manter a integridade competitiva com grupos de quatro.

O “Round of 32”, a fase que muda tudo
A inovação mais estrutural do ponto de vista do formato é a introdução de uma nova fase eliminatória: os 32 avos de final, também designados por Round of 32. Nunca antes um Mundial tinha esta fase, o mata-mata arrancava sempre nos oitavos de final. Agora, as 32 seleções apuradas na fase de grupos defrontam-se numa ronda extra antes das oitavas, disputada entre 28 de junho e 3 de julho.
Esta mudança tem uma consequência direta e inegável: o campeão do mundo de 2026 terá de vencer oito jogos para levantar o troféu, um a mais do que em todas as edições anteriores. Oito vitórias em pouco mais de cinco semanas, incluindo uma fase de grupos de três jogos e cinco eliminatórias consecutivas sem margem para errar.
Para os que valorizam a mística eliminatória do futebol, esta é uma boa notícia: mais jogos a eliminar significam mais drama, mais tensão, mais momentos inesquecíveis. Para os que defendem a qualidade sobre a quantidade, a questão é mais complexa. Com 104 partidas no total, um salto extraordinário face às 64 do Mundial anterior, o risco de saturação e de alguma perda de qualidade média existe e não deve ser ignorado.
39 dias de futebol contínuo
A competição decorre durante 39 dias, de 11 de junho a 19 de julho, dez dias a mais do que no Qatar, tornando-se a edição mais longa da era moderna. A final está marcada para o MetLife Stadium, em New Jersey, perto de Nova Iorque, um dos maiores palcos desportivos do mundo.
Pela primeira vez na história dos Mundiais, a competição é organizada por três países em simultâneo: Estados Unidos, Canadá e México. Os Estados Unidos acolhem 78 dos 104 jogos, em 11 cidades diferentes, e recebem as duas meias-finais e a final. O México e o Canadá recebem 13 jogos cada, incluindo o jogo de abertura no Azteca e partidas em Toronto e Vancouver.
Esta dispersão geográfica por 16 cidades em três países é em si mesma um feito logístico sem precedentes na história do desporto. E coloca os adeptos perante um torneio mais difícil de seguir na íntegra, mas também mais rico em diversidade cultural e geográfica.

Um formato para o futuro, com as dúvidas do presente
É impossível falar do novo formato sem falar das suas tensões internas. Por um lado, a democratização é real: mais seleções, mais continentes, mais histórias, mais surpresas potenciais. A chegada de seleções que nunca pisaram este palco é, por si só, motivo de celebração.
Por outro lado, levantam-se questões legítimas sobre a qualidade média dos jogos, a sobrecarga física dos jogadores num calendário já extremamente comprimido ao longo da época, e o risco de que a diluição do formato enfraqueça o peso simbólico de cada encontro na fase de grupos.
O que é certo é que o Mundial de 2026 vai ser diferente. Mais extenso, mais plural, mais ambicioso. Se o futebol de elite consegue manter a qualidade à altura da quantidade, é a questão que ficará respondida apenas quando o árbitro apitar para o início do último jogo, no dia 19 de julho, em Nova Jérsia.
Até lá, resta desfrutar da maior edição de sempre do mais belo espetáculo do mundo.