Cristiano Ronaldo no Mundial 2026 – O último capítulo?

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A 17 de junho, em Houston, Cristiano Ronaldo entra em campo pela seleção pela 227.ª vez. Tem 41 anos. O adversário é a RD Congo, na fase de grupos do Mundial 2026.

Vinte e três anos separam este momento da estreia em Lagos, em agosto de 2003, num amigável contra o Cazaquistão que quase ninguém viu.

Nenhum jogador masculino disputou mais jogos por uma seleção e nenhum marcou mais golos.

Em seis Mundiais, de 2006 a 2026, Ronaldo vai a Houston carregar os dois recordes ao mesmo tempo, com a camisola número sete que nunca largou.

O Início: Um miúdo do Sporting com pressa de crescer

Ronaldo estreou-se pela seleção principal a 20 de agosto de 2003, aos 18 anos, numa altura em que ainda era jogador do Sporting, apenas dois meses depois, transferiu-se para o Manchester United.

No primeiro jogo, não marcou. Também não marcou no segundo. Depois disso, marcou em todos os anos seguintes, que já são 22 anos consecutivos, incluindo 2025, um recorde mundial.

O primeiro Mundial foi em 2006, na Alemanha, com Luiz Felipe Scolari no banco, onde Portugal chegou às meias-finais, a melhor campanha desde Eusébio em 1966.

Ronaldo marcou um golo, numa fase em que ainda não era o jogador que se tornaria.

No jogo dos quartos, Portugal eliminou a Inglaterra, num jogo extremamente controverso e com “trocas de galhardetes” entre colegas de equipa, mas, na semifinal, perdeu com a França de Zidane, num jogo em que Ronaldo não conseguiu mudar o marcador.

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A Década de Domínio: 2010 a 2018

Em 2010, na África do Sul, Portugal passou à fase de grupos com Ronaldo a marcar apenas um golo, mas a movimentar a equipa de forma diferente do torneio anterior.

Nos oitavos, perderam com a Espanha por 1-0, eliminados pelo país que viria a ser campeão, mas saindo de cabeça levantada, sabendo que fizeram tudo ao seu alcance para avançar na competição.

Em 2014, no Brasil, a campanha foi dececionante.

Portugal caiu na fase de grupos depois de uma derrota por 4-0 com a Alemanha e de um empate tardio frente aos EUA que não chegou à passagem. Ronaldo marcou um golo, contra Gana, mas o torneio acabou cedo.

Dois anos depois, a “redenção” chegaria com o Euro 2016, apesar disso, Ronaldo saiu lesionado na final frente à França depois de apenas 25 minutos, passando o resto do jogo no relvado a dar instruções aos companheiros e, sobretudo, levantou o troféu em Paris quando o apito final soou.

Foi o único título coletivo da carreira até esta altura, sendo que naquele jogo, a equipa ganhou sem ele (ou talvez com ele de uma forma que a televisão não mostrou na totalidade).

O Mundial de 2018, na Rússia, foi o torneio em que Ronaldo esteve mais próximo de arrastar Portugal para uma campanha longa.

Marcou quatro golos em quatro jogos, incluindo um hat-trick frente à Espanha no primeiro encontro da fase de grupos, o terceiro golo, um livre direto aos 88 minutos, empatou o jogo aos 3-3.

No entanto, nos oitavos, Portugal perdeu com o Uruguai por 2-1, numa partida onde “faltou algo”, mas nunca saberemos o quê.

Qatar 2022: O atrito com Fernando Santos

O Mundial do Qatar foi marcado pelo confronto com Fernando Santos.

Na fase de grupos, Ronaldo tornou-se o primeiro jogador a marcar em cinco edições diferentes de um Mundial, com um penálti frente ao Gana. Nos oitavos, Santos tirou-o do onze inicial, Portugal ganhou 6-1, com Gonçalo Ramos a marcar um hat-trick no seu lugar.

Nos quartos, frente a Marrocos, Ronaldo voltou ao onze. Portugal perdeu 1-0 e Ronaldo chorou na zona mista, sem dar declarações.

Foi uma competição onde Portugal demonstrou legítimas aspirações a poder levar o título, mas a falta de “ambição” vinda do banco técnico pode ter sido a chave para o insucesso naquela fase crucial do Mundial.

Fernando Santos saiu semanas depois.

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A chegada de Martinez e a reconstrução

Roberto Martínez assumiu a seleção em janeiro de 2023 e tornou Ronaldo parte integrante do projeto, não como figura de museu, mas como capitão ativo com responsabilidade tática e de liderança dentro do grupo.

A Liga das Nações de 2025 foi o resultado mais tangível dessa relação. Portugal ganhou o torneio, com Ronaldo a marcar em jogos decisivos e no percurso até à conquista, Martínez usou-o de forma cirúrgica: titular quando o adversário justificava, gerido quando o calendário era exigente.

Ronaldo aceitou sem resistência pública.

Em outubro de 2025, com dois golos frente à Hungria, tornou-se o maior marcador da história das eliminatórias para o Campeonato do Mundo, com 41 golos e com uns incríveis 40 anos.

O que pode dar ao Mundial 2026

Com 143 golos em 226 jogos pela seleção, Ronaldo chega ao sexto Mundial com um perfil diferente dos anteriores.

Não é o jogador que decide por aceleração ou por intensidade durante 90 minutos, é sim um avançado que ainda tem presença na área, qualidade nos livres e capacidade de marcar em momentos específicos, o que altera a forma como as defesas adversárias jogam mesmo quando não têm a bola.

A sua presença no Grupo K tem um efeito concreto: a RD Congo, o Uzbequistão e a Colômbia vão dedicar recursos defensivos a cobri-lo que noutras circunstâncias iriam para Bernardo Silva, Rafael Leão ou Gonçalo Ramos.

Esse espaço criado indiretamente é uma contribuição real, não sentimental.

Martinez sabe que Ronaldo não vai jogar todos os minutos de todos os jogos. A questão não é se vai ser poupado, é quando e em que jogos.

Na fase de grupos, com adversários acessíveis, pode ter minutos controlados, mas no mata-mata, se Portugal chegar às meias-finais, Ronaldo vai querer estar em campo, sendo que já provou que ainda consegue aparecer em momentos grandes.

Seis Mundiais: O que os números dizem

Nos cinco Mundiais anteriores, marcou oito golos em 22 jogos, sendo o mais produtivo em 2018, com quatro golos em quatro jogos. O mais longo foi 2006, com a chegada às meias-finais, e o mais difícil em termos emocionais, sem dúvida, o de 2022.

Em 2026, vai ao seu sexto com uma equipa melhor do que tinha em qualquer dos anteriores.

O meio-campo com Vitinha, João Neves e Bruno Fernandes é o mais forte com que Ronaldo alguma vez jogou numa fase final de um torneio grande. Se Portugal chegar longe, vai ser por causa desses jogadores e Ronaldo sabe isso.

A questão é se aceita o papel de peça importante sem ser a peça central, e os últimos dois anos com Martinez sugerem que sim.

O que está em jogo

Ronaldo tem 143 golos pela seleção, dez hat-tricks e seis Mundiais, o que não tem é um título coletivo num Campeonato do Mundo.

Nenhum jogador com mais de 40 anos marcou num Mundial desde Essam El-Hadary, guarda-redes do Egito em 2018, num penálti.

Se Ronaldo marcar em Houston a 17 de junho, torna-se o jogador mais velho a marcar em seis edições diferentes de um Mundial e se Portugal ganhar o torneio, levanta o primeiro Campeonato do Mundo da história do país.

Pode ser o último capítulo? Ninguém o sabe, Ronaldo já disse que vai jogar enquanto se sentir bem.

Mas em Houston, a 17 de junho, quando a música de aquecimento parar e os dois hinos tocarem, vai ser o jogador com mais jogos e mais golos em toda a história do futebol de seleções a entrar em campo por Portugal pela 227.ª vez.

Esse número já não muda.

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