Portugal chega ao Mundial 2026 como campeão da Liga das Nações, com um dos plantéis mais profundos da história da seleção e com um selecionador que declarou publicamente que o objetivo é ganhar o torneio.
No entanto, uma questão que persiste desde 2022, conseguirá Roberto Martínez transformar talento individual em equipa que resiste quando os jogos ficam difíceis?
Esta é uma pergunta simples, mas com uma resposta muito complexa. No entanto, podemos desvendar alguns dos “segredos” respondendo a questões mais pertinentes e de carácter público.
O Grupo K: Favoritos com margem, mas sem garantias
Portugal está no Grupo K com a RD Congo, o Uzbequistão e a Colômbia.
A fase de grupos parece bastante acessível, mas o formato alargado de 48 seleções criou uma dinâmica nova: com oito melhores terceiros a avançar para o mata-mata, as seleções mais fortes chegam aos jogos decisivos com menos desgaste acumulado.
Para Portugal, isso significa que gerir o esforço na fase de grupos sem comprometer resultados pode valer mais do que ganhar tudo por grande margem.
A estreia é a 17 de junho frente à RD Congo, segue-se o Uzbequistão de Fábio Cannavaro a 23 de junho e o último jogo é contra a Colômbia, a 28 de junho, já em Miami.
Os três jogos realizam-se em Houston (os dois primeiros) e em Miami, sendo que Portugal não sai da costa leste americana na fase de grupos, o que elimina viagens longas e diferenças de fuso horário acima das cinco horas.
A Colômbia é o adversário com mais peso, contando com Richard Rios que chegou ao Benfica como um dos médios mais valorizados do mercado europeu, Luís Díaz vem do Liverpool em grande forma e Jhon Córdoba tem presença física no ataque.
Se Portugal tropeçar antes da última jornada, esse jogo em Miami pode ser mais tenso do que parece agora.

O plantel: Profundidade real em quase todas as posições
Roberto Martínez convocou 27 jogadores, um a mais do que o habitual, distribuídos por quatro guarda-redes, nove defesas, seis médios e oito avançados.
Cristiano Ronaldo é o capitão aos 41 anos, na sua sexta fase final de um Mundial, e Diogo Jota, que faleceu em julho de 2025 num acidente de viação, tem lugar simbólico entre os convocados, uma decisão de Martínez que diz mais sobre a coesão do grupo do que qualquer declaração.
As ausências mais comentadas são António Silva, João Palhinha e Ricardo Horta.
António Silva ficou de fora depois de uma época irregular no Benfica, Palhinha perdeu espaço no Bayern de Munique e nunca conseguiu voltar ao nível que apresentava no Fulham e Horta, habitual presença nas convocatórias, não entrou nas opções finais de Martínez.
Diogo Costa na baliza é um dos três ou quatro guarda-redes mais completos do torneio.
Na defesa, Rúben Dias e Nuno Mendes são os titulares com mais consistência, com João Cancelo e Diogo Dalot a competirem pelo lado direito. Tomás Araújo foi convocado, mas ainda não tem o nível de um ex-central como Pepe, nem a autoridade de Rúben Dias em palcos grandes.
O meio-campo é a maior força desta seleção.
Vitinha e João Neves formam uma das duplas mais equilibradas do torneio: Vitinha com capacidade de construção e mudança de ritmo, Neves com pressão alta e circulação em zonas congestionadas que poucos médios de 20 anos conseguem ler.
Bruno Fernandes dá volume ofensivo e decisão na meia-distância. Bernardo Silva continua a ser o jogador mais completo do plantel, capaz de jogar em três ou quatro posições sem perder rendimento, e Rúben Neves, quando está fisicamente disponível, acrescenta profundidade e experiência.
No ataque, Gonçalo Ramos poderá ser referência central, mas com um pequeno asterisco. Rafael Leão traz imprevisibilidade e aceleração quando entra em forma, sendo que o problema de Leão é que “quando entra em forma” é uma condição que nunca está garantida de jogo para jogo. Pedro Neto, Francisco Conceição e Gonçalo Guedes completam as opções pelas alas.
O modelo de jogo: O que Martínez quer e o que nem sempre consegue
Martínez trabalha com uma estrutura base de 4-3-3 que em fase defensiva comprime para um 4-5-1. A ideia é pressionar alto quando tem a bola, recuperar rápido quando a perde e explorar as costas das defesas adversárias com Leão ou Neto em transição.
O “meio-campo triplo” com Vitinha, Neves e Bruno Fernandes dá volume e qualidade na circulação, mas também exige que os três estejam no mesmo nível físico ao mesmo tempo.
O problema crónico desta seleção sob Martínez não é o talento, é a consistência dentro de um mesmo jogo.
Portugal ganha os primeiros 60 minutos com facilidade e depois baixa o ritmo. No Euro 2024, saiu nos quartos de final nos penáltis frente a França depois de um jogo em que criou mais oportunidades, mas não as concretizou.
A qualificação para este Mundial foi perfeita no papel, incluindo uma goleada de 9-1 à Arménia na última jornada com hat-tricks de João Neves e Bruno Fernandes, mas a qualidade dos adversários da fase de grupos era consistentemente abaixo do que vai encontrar no mata-mata.
Martínez disse que a conquista da Liga das Nações foi o momento que mostrou ao grupo que tinha capacidade para recuperar de situações adversas. O golo sofrido frente à Alemanha na meia-final, com a Seleção a virar o resultado a seguir, ficou como referência interna.
Se esse argumento se confirmar em jogos de eliminação em Houston e Miami, a questão sobre a consistência defensiva vai ter uma resposta diferente da que teve em Dortmund.
Ronaldo: A variável que nenhum selecionador consegue ignorar
Cristiano Ronaldo vai ao seu sexto Mundial com 41 anos.
Martínez foi direto quando anunciou a convocatória: “Ronaldo é um capitão exemplar e tem as mesmas exigências que qualquer outro convocado”, declarações que se podem ler entrelinhas como “não é titular garantido por nome, mas ninguém acredita que vai ficar no banco frente à RD Congo na estreia”.
A questão de Ronaldo em Mundiais é conhecida.
Em 2022, no Qatar, o confronto com Fernando Santos sobre o papel de titular custou coesão ao grupo e a prestação individual foi abaixo do que o plantel em redor podia ter dado.
Martínez tem uma relação diferente com o jogador, mais próxima, mais assente na confiança mútua, e Ronaldo chega ao torneio num momento de carreira em que a liderança dentro do balneário parece mais importante para ele do que os minutos em campo.
Se Gonçalo Ramos marcar golos e Ronaldo aceitar gerir os seus minutos sem tensão, este pode ser o Mundial em que a questão do capitão deixa de ser uma distração.
Se o resultado não aparecer cedo e a pressão de escalar Ronaldo crescer nos adeptos, Martínez vai ter de tomar decisões que nenhum selecionador português tomou antes contra o seu capitão histórico.

O caminho no mata-mata: Onde Portugal pode chegar
Portugal passa a fase de grupos. A questão é com que posição, se liderar o Grupo K, evita os segundos classificados de grupos mais fortes nos oitavos.
Os cruzamentos do mata-mata dependem do sorteio específico entre grupos, mas uma vitória na terceira jornada frente à Colômbia coloca Portugal com a melhor chave possível para os oitavos.
As odds das casas de apostas colocam Portugal em sexto lugar nos favoritos ao título, com probabilidade implícita de 9,1%, atrás da Espanha, França, Inglaterra, Brasil e Argentina.
É um favoritismo real, não inflacionado.
Portugal tem plantel para chegar à final: o meio-campo é o melhor do torneio fora das equipas do topo, a defesa com Dias e Araújo (ou Veiga) é sólida quando está concentrada, e o ataque tem variações suficientes para criar problemas a qualquer estrutura defensiva.
O que pode travar Portugal nos quartos ou nas meias não é falta de qualidade, são os penáltis, a gestão de jogos que ficam sem golos até ao fim, e a capacidade de Martínez de fazer substituições que mudam o jogo em vez de o estabilizarem.
No Euro 2024, as trocas do selecionador nunca mudaram um jogo, em Mundiais, essa limitação custa mais caro.
O que realmente esperar desta seleção?
Muito dificilmente Portugal não sairá do Grupo K, sendo que com alguma probabilidade, vai sair em primeiro. O mata-mata depende dos cruzamentos, mas um plantel desta qualidade tem condições para chegar às meias-finais.
O torneio de Portugal vai decidir-se em dois ou três momentos específicos: o jogo contra a Colômbia na fase de grupos, o primeiro jogo do mata-mata onde o adversário for mais forte do que os do Grupo K, e o primeiro jogo em que Portugal estiver a perder e precisar de virar.
Nesses momentos, Martínez vai ter de mostrar que aprendeu com os quartos de final do Euro 2024.
Se aprendeu, Portugal chega às meias-finais. Se não aprendeu, sai nos quartos pelos mesmos motivos de sempre.
O grande objetivo, será festejarmos um título histórico e, em bom tom da verdade, nunca estivemos tão perto disso.